Bom, como prometido, transcrevo aqui a nossa conclusão. Espero que sirva, pelo menos, como uma forma de início para reflexão e para futuros diálogos.
Comecemos nossa conclusão, portanto. Lerei 4 pequenos textos, cada qual com 4 ou 5 linhas e preciso que vocês estejam atentos, e que livrem-se de qualquer pré-conceito, ou conceitos feitos antes da compreensão de um objeto. Ressalto ainda que podem interromper, caso não entendam algo do que eu leia ou converse nesses minutos finais de nossa apresentação. Então, vamos ao primeiro texto:
Por isso se acendeu a ira do SENHOR contra o seu povo, e estendeu a sua mão contra ele, e o feriu, de modo que as montanhas tremeram, e os seus cadáveres se fizeram como lixo no meio das ruas; com tudo isto não tornou atrás a sua ira, mas a sua mão ainda está estendida. (Isaías 5:25)
Sustentados com os resíduos dos sacrifícios, alimento da imortalidade, vão unir-se ao eterno Brahma. Aqueles que não praticam nenhum sacrifício não podem gozar este mundo; como poderão pois, gozar o outro, ó melhor dos kurus? (BHAGAVAD GITA)
Os resíduos sólidos são materiais heterogêneos, (inertes, mineriais e orgânicos) resultantes das atividades humanas e da natureza, os quais podem ser parcialmente utilizados, gerando, entre outros aspectos, proteção à saúde publica e economia de recursos naturais. Os resíduos sólidos constituem problemas santário, econômico e principalemnte estético.
Lixo é uma palavra latina (lix) que significa cinza, vinculada às cinzas dos fogões. Segundo Ferreira (1999), lixo é "aquilo que se varre da casa, do jardim, da rua e se joga fora; entulho. Tudo o que não presta e se joga fora. Sujidade, sujeira, imundície. Coisa ou coisas inúteis, velhas, sem valor". Jardim e Wells (1995, p. 23) definem lixo como "[...] os restos das atividades humanas, considerados pelos geradores como inúteis, indesejáveis, ou descartáveis". (MUCELIN; BELLINI, 2008, p. 113)
Acabei de ler quatro trechos que se referem, cada um ao seu modo, a lixo ou RESÍDUO (vocábulo atualmente muito utilizado pelo meio academico e técnico, mas que continua possuindo a mesma natureza). Vale destacar que são nítidas as diferenças entre os dois textos que foram lidos primeiramente e os dois últimos. Não é de se espantar, os tiramos de fontes diferentes, e, aliás, eles também foram escritos em épocas distintas. O primeiro, que talvez vocês reconheçam com maior facilidade, pertence a Bíblia, livro sagrado dos Cristãos; o segundo, que remonta ao século 5 a.C. pertence ao Bhagavad Gita, da grande epopéia indiana Mahâbhârata. Os últimos trechos lidos, por sua vez, foram retirados da internet e de um artigo científico, respectivamente. !!! Ora, ora, ora... estamos aqui hoje falando que lixo é isso, aquilo, ou aquela outra coisa; que devemos fazer isso ou aquilo, que transportamos dessa ou da outra maneira... e a maior parte dos nossos discursos, percebemos, o grupo do qual faço parte e eu, terminam com uma palavra pouco compreendida mas muito em moda: Sensibilização, ou seu equivalente, Conscientização. Diria Lima Barreto, com seu tom sutil e irônico, que as pessoas seguem modas porque não as compreende. (É a velha estória das roupas do rei). Mas estamos aqui muito mais pra aprender, pra ouvir e compartilhar; então propomos, aqui, essa breve discussão dentro da conclusão do nosso trabalho. Afinal, porque discutimos lixo (lixo sim, sem eufemismos baratos ou normas técnicas caracterizadamente mascaradoras)? Como essa discussão pode me atingir? O que era lixo antes de ser “lixo”? E o que é conscientizar as pessoas com educação ambiental?
Voltando aos trechos selecionados, do início do nosso bate-papo, podemos perceber algo (com nossa capacidade do livre raciocínio) que foram elaborados pra objetivos e interlocutores diferentes. Os dois primeiros são muito claramente religiosos ou doutrinários: Não estavam muito preocupados com o lixo em-si, mas com a imagem que isso faz parecer. No primeiro, o lixo não é algo bom, já que Deus nos pode punir colocando defuntos nas ruas. Agora, atentem para esse fato: o lixo, já nesse tempo, era tratado como algo ruim. Era sinal de coisas ruins. Isso não é fantástico? Estamos discutindo algo que já surgia como problema há, pelo menos 2000 anos. E, o quanto avançamos nisso? Quanto desenvolvemos em termos de técnicas, de métodos, de procedimentos?
Partindo para o segundo texto selecionado, vemos um uso diferente, e um tanto quanto bom, no entanto metafórico dos resíduos: “os resíduos dos sacrifícios, alimento da imortalidade”. É poético, e encerra uma visão oposta a que costumamos ter.
Bom, agora vamos ao contra-ponto, que são os dois últimos textos que trouxemos para vocês, e que podem ser considerados contemporâneos. Eles são bem mais familiares. São diretos! Objetivos! Foram formulados através de uma lógica, de um método, de normas que dizem o que é certo e errado! É claro que são esses tipos de palavras que aprendemos aqui. Essas são as palavras que reproduzimos nas provas, que medem nosso grau de “aprendizagem”. Mas observem, e esse é o ponto mais importante de nossa conversa: observem que o nosso curso de Saneamento Ambiental reproduz uma batalha presente desde tempos antigos, mas incorporada no meio científico na década de 70 e 80, quando James Lovelock elaborou sua Hipótese ou Teoria de Gaia, quando dos estudos que estava fazendo para a NASA. Essa hipótese, que estudamos de forma rápida em Ecologia e que e por muitas vezes é citada pelo professor Wellington Villar, diz que todo o planeta é um organismo vivo, com sistemas interatuantes e interdependentes. O esforço todo se resume nisso: informar as pessoas, (primeiramente o meio acadêmico e depois a população), dessa verdade que é dita há anos: se você age inadequadamente, o meio-ambiente responde inadequadamente (inadequadamente para os nossos padrões, frise-se)... e é isso que a educação ambiental tenta fazer. Estabelecer o elo entre os dois textos iniciais e os dois últimos. Percebem? Saímos de um mundo popular (expresso nos textos sagrados) para ir a um mundo tecnicista (Textos científicos) e dele voltamos para o mundo e dizer que o que fazemos é errado. Em outras palavras, é sair de um mundo moderno inventado pelo cartesianismo. Aliás: disse um grande professor: “O cartesianismo é um bicho que teima em morder nossos tornozelos e continuar assim, até que achemos uma coisa melhor”. E, como diria Goethe enfaticamente; “Deus nos livre do sonho de Newton”. Deus nos livre do mundo como o relógio de peças girantes e circuitos simples. Esse, senhores e senhoras, é o nosso porquê dos textos apresentados aqui, nessa breve discussão, ou nessa conversa feita com alguns diálogos.
Mas essa batalha que vivemos hoje não tem nada de inédito. Apesar de termos nomes de grandes soldados em dias atuais, como: Fritjof Capra com sua série de livros que defendem o pensamento sistêmico, em evidência no seu livro a Teia da Vida, o qual tivemos oportunidade de estudar em algum período precedente; o próprio Lovelock; Arne Naess com sua Ecologia Profunda; Bruno Latour com seus questionamentos sobre verdades científicas e teoria do Ator-Rede, temos ainda outros, que me permitam dizer, formam a velha guarda: Thoreau com seu livro Walden; Gandhi, Rosseau, e, não esqueçamos do Chefe Seattle. Assim como os nomes que citamos aqui, lembrem-se das antigas doutrinas: o Budismo, Taoísmo que já tinham em seus discursos essa co-dependência entre humanos e não-humanos.
Em suma, tentar sensibilizar as pessoas que somos parte de uma única cadeia, e que nossas ações diárias repercutem sobre a natureza e sobre nós mesmos, é nossa principal tarefa. Porque a mudança parte de nós... e de nada adiantaria a um Tecnólogo todo seu arcabouço técnico, se ele o adquiriu objetivando unicamente seus desejos. Conscientizar sobre dispor o lixo de tal ou qual forma, de reciclar, reduzir ou reutilizar, de gerenciar o lixo e orientar prefeituras sobre como reagir a toda essa problemática... tudo isso parte de nossa própria capacidade de viver e sentir o mundo como um só ente. Vejamos portanto a técnica sob um olhar humano e menos material. Categorizar o lixo? Saber sua procedência? Sim, isso é bom e é o que aprendemos aqui... mas isso de nada vale sem os princípios éticos que também aprendemos aqui. Ética, eis a palavra que gostaríamos que ficassem com vocês no fim desse palavriado.
Obrigado pela paciência.

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