Me perguntaram, certa vez, o que eu fazia na terra de Lá. Muitas foram as minhas respostas, porque em Lá não se acredita muito nas coisas que devem ser acreditadas e não se sente as coisas que poderiam ser sentidas.
Me disseram, com muita cautela e ao pé do meu ouvido, que Lá, antes de ser Lá, era uma terra do Aqui, onde as mulheres dançavam, a crianças riam, os homens caçavam e se reuniam ao redor de uma grande fogueira ao fim do dia, e os velhos passavam o tempo falando dos seus ancestrais.
Admito que fiquei muito surpreso e isso se transformou em um enorme respeito a todos que fizeram parte da terra de Aqui. Fiquei surpreso e triste, pra ser sincero. Perguntei a mim mesmo onde havia sido colocado todo o entusiasmo das mulheres, homens, crianças e velhos... eles simplesmente não estavam mais em Lá.
Meus dias se passaram em uma indizível melancolia. Lá resumia-se a um tom cinza que às vezes dava lugar a um preto sombrio, e a pergunta ricocheteava de um canto a outro da minha mente. Como aquelas músicas chatas que teimam em ir e vir... e quanto menos a gente gosta, mais ela fica. Queria me desvencilhar do tom lúgrube de Lá como quem procurava a liberdade. Apesar dos meus esforços, eu continuava preso Lá, cá e em todos os lugares.
Vendo o caos que precedia a luz da estrela, um homem sábio convidou-me a sentar-se com ele. Pra falar a verdade, ele era estranho e tinha umas piadas muito sem graça. Mesmo assim, decidi ouvi-lo, e ele me contou uma história.

"Certa vez, conheci um jovem que saiu para caçar. Isso fazia parte de sua iniciação como homem. Devia sair e caçar sozinho. Assim, ele foi com um arco e uma flecha. Ficou horas na mata, sua fome aumentava, e nem um simples pássaro cruzava o seu caminho. Quando ele achou que morreria, viu um pequeno porco do mato. Preparou seu arco, pôs a flecha, estendeu o arco o mais que pode, mirou a presa... a flecha foi lançada e o porco atingido...apenas de raspão e fugiu. O jovem não tinha mais esperanças. Pensou consigo mesmo que todo o tempo de treinamento tinha sido em vão. Sentou-se em tronco e chorou o quanto pode. Lá pelas tantas, depois de um cochilo solitário, ele lembrou das crianças da tribo que faziam brincadeira com tudo, até com o lixo. Então olhou para toda a mata e viu as cores dos frutos, das folhas, das flores, as sementes, as formigas, e tudo pareceu uma grande aventura. Um sorriso se fez presente em seu rosto. A fome continuava, mas ele poderia brincar de ter fome. Levantou-se e agradeceu por ter olhos que pudessem ver as cores e ouvidos para escutar o som da mata. Agradeceu ao tronco que lhe sustentou algumas horas e a terra, na qual ele apoiava os pés. Então, uma vez erguido, lembrou das tantas histórias que os seus avós e os avós de seus amigos contavam sobre os ancestrais. Lembrou de uma história que um dos velhos lhe havia contado, sobre um homem que, uma vez quase morto, invocou os ancestrais e estes lhe deram o que comer. Parecia uma ideia ruim para um caçador. Caçadores não falam com os ancestrais, só os velhos. Caçadores caçam, apenas isso. Mas ele estava com fome e, sendo assim, não tinha tanto problema ser um pouco velho e antiquado. Mas ele precisava das mulheres pra chamar os ancestrais... mas não tinha mulher. Pensou um pouco e disse para si mesmo: "dançarei como uma mulher, invocarei como um velho e farei tudo isso como uma criança". Após um tempo, a mata calou-se, o vento parou e uma grande presa apareceu. Ele correu como um caçador e apanhou o alimento. Saciou sua fome e mais uma vez agradeceu. Então o jovem percebeu que devia a sua vida às mulheres, aos homens, aos velhos, às crianças, a ele mesmo, à caça, à mata e aos ancestrais. Agora ele aprendeu o que era ser alguém".
Ouvi a história do sábio, que mais parecia um tolo, e finalmente entendi o que eu fazia em Lá... eu fabricava amigos.
