terça-feira, 19 de março de 2013

Na terra de Lá, onde se fabricam amizades


Me perguntaram, certa vez, o que eu fazia na terra de Lá. Muitas foram as minhas respostas, porque em Lá não se acredita muito nas coisas que devem ser acreditadas e não se sente as coisas que poderiam ser sentidas. 
Me disseram, com muita cautela e ao pé do meu ouvido, que Lá, antes de ser Lá, era uma terra do Aqui, onde as mulheres dançavam, a crianças riam, os homens caçavam e se reuniam ao redor de uma grande fogueira ao fim do dia, e os velhos passavam o tempo falando dos seus ancestrais.
Admito que fiquei muito surpreso e isso se transformou em um enorme respeito a todos que fizeram parte da terra de Aqui. Fiquei surpreso e triste, pra ser sincero. Perguntei a mim mesmo onde havia sido colocado todo o entusiasmo das mulheres, homens, crianças e velhos... eles simplesmente não estavam mais em Lá.
Meus dias se passaram em uma indizível melancolia. Lá resumia-se a um tom cinza que às vezes dava lugar a um preto sombrio, e a pergunta ricocheteava de um canto a outro da minha mente. Como aquelas músicas chatas que teimam em ir e vir... e quanto menos a gente gosta, mais ela fica. Queria me desvencilhar do tom lúgrube de Lá como quem procurava a liberdade. Apesar dos meus esforços, eu continuava preso Lá, cá e em todos os lugares.
Vendo o caos que precedia a luz da estrela, um homem sábio convidou-me a sentar-se com ele. Pra falar a verdade, ele era estranho e tinha umas piadas muito sem graça. Mesmo assim, decidi ouvi-lo, e ele me contou uma história.


"Certa vez, conheci um jovem que saiu para caçar. Isso fazia parte de sua iniciação como homem. Devia sair e caçar sozinho. Assim, ele foi com um arco e uma flecha. Ficou horas na mata, sua fome aumentava, e nem um simples pássaro cruzava o seu caminho. Quando ele achou que morreria, viu um pequeno porco  do mato. Preparou seu arco, pôs a flecha, estendeu o arco o mais que pode, mirou a presa... a flecha foi lançada e o porco atingido...apenas de raspão e fugiu. O jovem não tinha mais esperanças. Pensou consigo mesmo que todo o tempo de treinamento tinha sido em vão. Sentou-se em tronco e chorou o quanto pode. Lá pelas tantas, depois de um cochilo solitário, ele lembrou das crianças da tribo que faziam brincadeira com tudo, até com o lixo. Então olhou para toda a mata e viu as cores dos frutos, das folhas, das flores, as sementes, as formigas, e tudo pareceu uma grande aventura. Um sorriso se fez presente em seu rosto. A fome continuava, mas ele poderia brincar de ter fome. Levantou-se e agradeceu por ter olhos que pudessem ver as cores e ouvidos para escutar o som da mata. Agradeceu ao tronco que lhe sustentou algumas horas e a terra, na qual ele apoiava os pés. Então, uma vez erguido, lembrou das tantas histórias que os seus avós e os avós de seus amigos contavam sobre os ancestrais. Lembrou de uma história que um dos velhos lhe havia contado, sobre um homem que, uma vez quase morto, invocou os ancestrais e estes lhe deram o que comer. Parecia uma ideia ruim para um caçador. Caçadores não falam com os ancestrais, só os velhos. Caçadores caçam, apenas isso. Mas ele estava com fome e, sendo assim, não tinha tanto problema ser um pouco velho e antiquado. Mas ele precisava das mulheres pra chamar os ancestrais... mas não tinha mulher. Pensou um pouco e disse para si mesmo: "dançarei como uma mulher, invocarei como um velho e farei tudo isso como uma criança". Após um tempo, a mata calou-se, o vento parou e uma grande presa apareceu. Ele correu como um caçador e apanhou o alimento. Saciou sua fome e mais uma vez agradeceu. Então o jovem percebeu que devia a sua vida às mulheres, aos homens, aos velhos, às crianças, a ele mesmo, à caça, à mata e aos ancestrais. Agora ele aprendeu o que era ser alguém".


Ouvi a história do sábio, que mais parecia um tolo, e finalmente entendi o que eu fazia em Lá... eu fabricava amigos.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

de repente, não mais que de repente...


de repente deu uma saudade... rever as fotografias, lembrar por tudo o que passamos juntos - não que agora estejamos separados, apenas não nos vemos mais com tanta frequencia.
os primeiros contatos - parece até nome de filme - as primeiras impressões geradas, os grandes e importantes achados... o "Quarteto Fantástico". os trabalhos feitos, algumas vezes contra a vontade, confesso.
a ida ao parque da sementeira para fazer trabalho, a chuva juntos...
momentos que ficam pra sempre guardados na memoria.
pequenos momentos, mas que ficarão guardados para toda a vida.

terça-feira, 20 de julho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

Crise de identidade


 

Na verdade, tudo começara meio incerto. Ninguém sabia quem era quem naquela grande confusão. Rostos desconhecidos, gestos mais ainda. Quantas histórias podiam ser contadas, quantas mágoas, alegrias, esperanças e desejos.
Mas a massa disforme foi, aos poucos, ganhando contornos bem definidos. Agora as coisas pareciam bem mais agradáveis. Bem, existia o lado ruim: quando algo já está formado não lhe é mais permitida a capacidade de imaginar o que aquele algo se tornará. Talvez esse não tenha sido o grande problema.
Com o passar do tempo, as coisas receberam nome e hierarquia. Não que houvesse um Adão dando nomes a tudo: "aquilo é pedra", "isso é coelho", "aquilo é passarinho"... Não se trata disso. No entanto, existia ali vários Adão"s", classificando tudo segundo suas prioridades e visões de mundo.
Foi numa dessas classificações que me encaixaram como alguma coisa. Bem, eu creio ter sido incluído em alguma, porque eu mesmo classifiquei a todos. Admito que nem todos os rótulos foram bons, e os que foram inicialmente bons, se tornaram ruins, sujeitos a uma nova classificação. Aos poucos, observei que as divisões e hierarquias que eu havia feito precisavam ser mudadas. Pra ser sincero, mudei-as várias vezes...
O fato é que, na nossa última classificação, eu, ao assumir o papel de um Adão sem Eva, cometi o erro de classificar um leão como um gato. Esse foi um baita erro. Antes que vocês me cravem numa cruz, deixem-me explicar... Em primeiro lugar, eu devo me defender partindo de que ambos são mamíferos e felinos. O erro, dependendo de como eu o vi, pode ser até perdoável desse ponto de vista. Em segundo, gostaria de dizer aqui que os dois tem bigodes. Não é lá essas coisas, mas, se você está no escuro e só depende do tato, você deveria saber que esse dado pode ser muito revelador. Em terceiro, ambos têm pêlos, o que é um grande diferencial: se um deles tivesse penas eu não poderia confundi-los. Além dessas, muitas outras semelhanças existem.
Como eu havia falado, o erro foi cometido, mas o detectei a tempo, eu acho. Pensando, descobri os pontos em que eu havia me equivocado. a) O leão, outrora tido como gato, movimentava-se cautelosamente como seu amigo felino doméstico: ninguém sabia ao certo onde ele estava, aos poucos estava ali naquele grupo de animais, ora num outro grupo. b) Os outros animais o respeitavam não porque ele era fofinho (como um gato desses que passa se esfregando na perna da gente), mas porque ele inspirava confiança e respeito. c) O leão que tomei como gato, se via como gato. d) O leão não rugia! Acredita nisso?! Ele não ru-gi-a!
Um dia, muito decepcionado com o erro que cometera, me encontrei com o leão (que eu havia chamado de gato. como eu pude fazer isso?) e me retratei do meu erro. Ele, muito paciente, disse: "Não, não, você não cometeu nenhum equivoco. Eu sou um gato". Calei, encarei-o (com medo, mas encarei). Ele estava muito seguro de que era, de fato, um gato. E, pelo jeito que falava, era um gato siamês.
Me desculpar não era o suficiente. Agora minha tarefa era provar que eu estava certo.
Vários dias eu pensei, pensei, e pensei... Quais provas eu iria mostrar pra um leão que acha que é um gato?
Outro dia, munido dos argumentos necessários, fui lá conversar com ele, que, como sempre, estava no meio dos outros animais... crente que era um gato!
Toquei no ombro e falei-lhe: "Se você é um gato, por que tem juba?" Ele coçou a cabeça, percebeu a juba, olhou pra mim: "Deve ter sido uma anomalia em algum cromossomo". Pensei comigo que ele tinha até contra-argumento na ciência moderna. (Quem disse que a ciência era boa em todas as ocasiões?).
Mas eu tinha um plano B.
"Se voce é um gato, porque seu rabo não é como aquele ali?" - E apontei pra um gato que acabara de entrar numa lata de lixo".
- Problema de infância. É muito traumático falar disso. - Contra isso eu também não tinha nada a declarar. Afinal, se ele não queria falar, não sou eu quem  insistiria.
Eu já estava sem opções. Isso me fazia repensar se eu era mesmo eu.

Depois de algum tempo, cansado de tanto tentar convencer o leão de que ele era um leão, uma grave seca assolou nosso território. Os outros animais já estavam cansados e exaustos. Eu, particularmente, não aguentava me manter alerta por muito tempo. Um outro animalzinho - eu creio que era fêmea, - nem falava mais. Um outro animal, que hoje eu descobri ser um sagüi em risco de extinção, nem mais aparecia por ali. Diziam que, mesmo com toda aquela crise, ele procurava uma parceira pra se reproduzir. O fato é que, só o "gato" conseguia se manter de pé.
No meio desse caos, onde ninguém aguentava mais nada, e vendo seus amigos animais magros, abatidos e beirando a morte, o leão vê, ao longe, um cervo em disparada. O leão corre... e eu creio, hoje, que ele nem pensou em correr, apenas foi.
Ele crava os dentes no pescoço do cervo, e traz a caça para os animais famintos. Estando entre eles, vi ali uma oportunidade de convencer o leão de que ele, de fato, era um leão... meus olhos brilharam com a idéia. Olhei novamente e perguntei: "Vem cá, você já viu algum gato caçando cervo?". Meu argumento era bom. Confesso. Se ele disesse que era uma anomalia herdada, eu poderia apontar para os outros leões que habitam por ali e diria: "Então aqueles caras lá também são gatos, ou eles têm a mesma anomalia genética que você, e nós dois sabemos que mutações genéticas são inespressivas estatísticamente, o que, invalidaria sua resposta...". É, meu argumento era bom. Eu estava prestes a receber um "Sim, eu sou um leão". Afinal, eu sempre tentei comparar ele com ele mesmo, e nunca com outros da espécie... 
Ele coçou a cabeça, olhou para os lados, e me respondeu:
- Devo confessar que nunca vi um gato comendo cervo, mas você ouviu falar daquela história que um gato-selvagem matou um cervo nas bandas de..."

E até hoje eu tento convencê-lo de que ele não é um gato.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Como se despedir de um bom amigo: 10 passos


1. Tudo parte da vontade. Se é um amigo mesmo, daqueles que tem um lugar reservado no seu coração, então sua vontade certamente será sincera. A vontade sincera de estar com seu amigo é seu ponto de partida.
2. Juntar-se com os iguais. É preciso, para que uma boa despedida seja feita, que você esteja acompanhado daqueles que partilham do mesmo sentimento. Só assim pode-se comungar e ter uma experiência reveladora. A despedida  é, acima de tudo, um momento de glória, e não apenas de pesar.
3. Jogar-se sem medo. Depois que se toma a iniciativa e juntam-se os iguais, é preciso desapegar-se de todas as convenções sociais e de todas as máscaras. Deixar-se guiar pelos sentimentos é o terceiro passo.
4. Escutar é preciso, falar não é preciso. As coisas ocorrem, simplesmente. Um recorda-se de tal ou qual evento; outro soma a isso um detalhe; outro, ainda, ali no canto, sorri. Todos sorriem. Nesse momento, o silêncio fala e nós os escutamos. O quarto passo refere-se a ouvir até onde as palavras estão ausentes.
5. Ao seu amigo, que desbravará outros horizontes, ofereça tudo o que houver de bom em você. Sinta-se uno. O melhor presente que você pode oferecer é o abraço carinhoso e os braços abertos, ansiosos por recebê-lo de volta.
6. Ter um meio de locomoção adequado. Um carro é bom e facilita muitas coisas. A conversa durante o caminho, para qualquer rumo, é o mais interessante. As piadas, rememorações e coisas sérias que falamos ficam gravadas na gente. Não precisa ser uma Ferrari. O que importa mesmo são as pessoas que estão nele. ( E que ele ande).
7. Tenha pouco ou o suficiente de dinheiro no bolso. As melhores despedidas são aquelas regadas a caldo-de-cana e pastel. Não é necessário mais do que isso. Lembre-se, o que importa nessa ocasião não é seu estômago, mas o pão que se reparte na última "ceia" de vocês. O repartir é a palavra-chave do sétimo passo.
8. Brinque o máximo que você puder. Os sorrisos têm o dom de atenuar dores físicas e emocionais. Não nos deixa, também, cair em lamentações. Se existirem lágrimas, que sejam de tanto sorrir.
9. Toquem as mãos. Façam-se elogios. Abracem-se. Sempre mais uma, duas ou três vezes. Não há quantidade certa pra isso. Apenas faça o que der na telha. (ver o passo número 3)
10. Não siga regras. A amizade não é regida por regras. É algo que acontece. Você não escolhe seus amigos, pelo menos não com tanta acurácia. Eles chegam na sua vida. É isso: eles chegam e você os acolhe ao mesmo tempo em que é acolhido. Amizade não tem barreiras, e, se houvesse, elas seriam facilmente destruídas. A amizade é uma das manifestações da poderosa força construtora do amor.

domingo, 23 de maio de 2010

Eu estava lá.

Eu a tinha notado, cabisbaixa, andando disfarçadamente, como se algo a incomodasse e como se aquilo não devesse incomodar a mais ninguém além dela mesma. Perguntei às outras pessoas que a viam com frequência sobre se a tal fulana não andava meio estranha. Disseram que não. Bem, eu acreditei. Por que duvidaria? Disseram-me que ela mostrava-se feliz como sempre, brindava os velhos amigos e os novoscom a irreverência de sempre.
Devo confessar que ela sempre foi impulsiva. Não hesitava em se mostrar indignada acerca de algo, sem mostrar seu modo de encarar a situação de seu jeito. Peculiar, é claro. Mas não deixava de se mostrar como era - e continua sendo.
Se os outros diziam que ela estava bem, por qual motivo eu deveria me preocupar? Talvez fossem meus olhos os errados. Tantas pessoas - duas ou três, pra ser sincero - falando a mesma coisa, como poderia discordar. O conformismo é mesmo uma praga; saberia tempos depois.
A responsabilidade não me chamava pelo nome. Aliás, ela até chamava, mas num tom ainda ameno. Se ela tivesse gritado, quem sabe eu reagisse de maneira diferente? Às vezes não gostamos de ser reponsáveis pela felicidade de quem gostamos. Eu até sei que existe um limite pra isso, mas essa responsabilidade(palavra longa pra se escrever e complicada de se aceitar) ainda existe. Gostamos de nos entregar, mas não de segurar algo ou alguém que se entregue. O fardo parece pesado demais.
O fato é que ela estava mesmo com algum sofrimento. Um dia a vi, com a expressão de quem sofria terrivelmente. Voltei a perguntar. Disseram que eu havia enxergado demais. Chamei-os de cegos - apenas esbocei umas palavras, meus lábios até se mexeram um pouco, mas o grito foi dado mesmo na minha consciência. Esta já se ocupava de encontrar uma solução: o que deveria ser feito? As pessoas com as mãos amarradas por fios invisíveis. Passou pela cabeça deles, faz-me crer, que ela já tinha havia se tornado um incomodo há muito. Melhor seria livrar-se dela. Indignação. Raiva. Peso na consciência. Meus olhos estavam bons, e eu não havia lhes creditado.
 O problema não é quando não se enxerga, mas quando se enxerga além da capacidade da visão. As visões paralisam a gente.
Recuperado do choque, voltei a encará-la, dizendo em palavras mudas que eu havia finalmente percebido o que deveria ser feito. Pensei ter visto um suspiro de alívio e que ela me dizia: só agora você percebe? 
Chega o momento em que devemos fazer o que deve ser feito, que não necessariamente é o que gostaríamos de fazer. E o pior inimigo do homem é o orgulho que lhe segue, que sufoca...
Levei-a comigo. Os outros ajudaram, não sei se comovidos com minha comoção, mas eles também estavam lá. Eu a vi entrar no consultório.
Eu estava lá, sempre ao seu lado. Minha mente traçara todos os diagnósticos possíveis; desde o intratável tumor maligno, até uma branda tensão por estresse - já fazia algum tempo que a gente não tinha um tempo a sós, talvez isso tivesse desencadeado uma crise de carência aguda, quem sabe?!
Eu estava lá, quando ela suportou duas doses de calmante no primeiro dia. O corpo permanecia forte. Guerreira que é, não cedeu. 
Eu estava lá no segundo dia, quando resistiu às três doses de anestesia. estava lá na primeira dose, na segunda. 
Estava lá quando ela me olhou, e quase me dizia que não ia desistir. Seu orgulho me parecia meio besta num momento daquele, no entanto, aquela era ela. De fato. Mas ela cedeu na terceira.
Eu também estava lá no diagnóstico; era grave, mas poderia ser tratado.
Apesar do menosprezo que temos pelo dinheiro, ele se faz necessário quando a saúde de quem você gosta está em jogo. Nesse jogo, se você dá o que tem, você ganha. Eu não entro em jogo pra perder. Competir só é bom em entrevita de esporte. Estamos aqui, lutando. A vida é um jogo que devemos ganhar.
Ela está bem agora, mais forte, com a expressão de felicidade de sempre - a verdadeira expressão. No entanto, uma pergunta persiste em mim: os cão é o melhor amigo do homem, mas é o homem o melhor amigo do cão?