quarta-feira, 31 de março de 2010

Em Lá, Galileu não seria Galileu

Na terra de lá, as coisas são realmente muito estranhas. Não sei como continuo a me surpreender com isso. Talvez eu seja uma pessoa facilmente impressionável, ou fantisiosa demais. O fato é que eu acabei descobrindo, não sem um empurrão do destino, que em Lá existem várias abelhas-rainhas. Sim, isso mesmo, vá-ri-as! Eu, conformado com a opinião de alguns livros didáticos, quando diziam que uma colméia tinha apenas uma rainha, fiquei revoltado. Bem que eu desconfiava: esses livros didáticos são ultrapassados. Claro. Só pode.
Lá é a prova de que as teorias e observações podem estar muito erradas. Por exemplo, se Newton estivesse no jardim de Lá quando a maçã caiu, ele certamente não teria chegado à teoria da gravidade. Disso eu tenho certeza. A primeira coisa que ele faria era uma teoria político-Marxista sobre como os serventes não fazem o trabalho de poda direito porque a burguesia não os valoriza, etc.
Se Descartes tivesse passado por Lá, ele não teria chegado à conclusão de que "Penso, logo existo". Ele teria, no mínimo, chegado a conclusão de que "Pense muito, e você será o incoveniente". Disso surgiriam várias outras postulados, como: "Divida seu sonho em partes, depois jogue tudo fora", afinal ele não serve pra passar de semestre.
Tabela periódica? Mendeleiv? Se Mendeleiv tivesse estudado em Lá, ele estaria estudando até agora uma disciplina de Cálculo I só porque reprovou trocentas vezes por ser tímido demais pra tirar xerox atrás de 18376483739339 pessoas. Detalhe: todas com pressa.
 E aquela velha história de Galileu, onde ele discordou de Aristóteles ao soltar dois objetos de massas diferentes e ter notado que os dois chegaram ao mesmo tempo no solo? Puts, seria muito diferente se ele tivesse jogado os objetos de cima de um dos prédios de Lá: no meio do percurso algo aconteceria. Por certo, um dos objetos teria que informar qual a finalidade de sua saída de A para B através de um relatório de algumas centenas de palavras, que deve ser entregue no dia X, esperar por "n" dias por uma resposta, e depois encaminhar pra um departamento com siglas indecifráveis. No mínimo Galileu chegaria à conclusão de que dois objetos, quando jogados, se perdem no meio de uma pilha de papel feitos por outros objetos que também queriam chegar até o chão. É, acontece.
  

segunda-feira, 29 de março de 2010

Na terra de Lá, onde as formigas andam separadas e abelha tem casa com parede, cerca viva e jardim.

Hoje, sinto um gosto de noltalgia a me inundar a boca.
Lá não existem Mércias, Ivans, Alans, Valérias, e, até, as perguntas às vezes incovenientes de Laís. Lá não existem essas coisas. Esse Lá é tão distante daqui, que me dá até vertigem falar dele. Mas o Lá está ai  pra  ser falado, e porque me é dado o direito de escrever, eu escrevo. Com um pouco de revolta, nostalgia e medo, é verdade, mesmo assim eu escrevo.
Lá não existe o ritmo cadenciado e malicioso do discurso de um Alan. Aliás, não existe também o dom religioso do Alan que eu conheço. Religioso tendo como base a etimologia própria de religião - religare -, que é unir o que está separado. Lá, não existe esse personagem fabuloso que une as mais diversas coisas em uma fala só. Esse Lá está em uma séria desvantagem.
Lá não existe também, o tom apassivador e conciliador de um leão ímpar, chamado Ivan. Nada disso. Seria até uma afronta ter alguém tão grande assim. Em Lá, não existe espaço suficiente pra um leão, quem dirá um do tamanho de Ivan. Seria quase um sacrilégio!
Se você olhar os cantos de Lá - cantos é que mais tem - você pode ver alguém revoltado com alguma coisa, uma discussão política aqui e ali, alguém insatisfeito com isso e aquilo. No entanto, em Lá, você não vê atitudes meigas como as de uma Mércia. Eu não consigo enxergar em Lá a graciosidade de uma garça em voo. Lá é um lugar chato. As garotas de Lá não sorriem muito. Até sorriem, mas não é a mesma coisa. Se as garotas se sentem incomodadas, elas não sentam no canto e pedem por carinho; elas gritam e esbavejam. Até a raiva que as garotas de Lá sentem é diferente da raiva de uma nossa Mércia, Laís, Valéria, Diandra... Mas, acima de tudo, em Lá, não existe Mércia, o que já é o bastante para dizer que eu não gosto muito.
 Quando eu saía de Lá, até semestre passado, cansado e irritado, e chegava no meu lar (um lar sem cama, cômodo e essas coisas... um lar que é um lugar que a gente pode retornar quando nos sentimos sozinhos. O lar que é, e é apenas porque nossos amigos estão), as coisas pareciam se transformar. As nossas conversas eram revigorantes. Às vezes, eu chegava, e me batia com alguém que chegou antes da hora. Mas na maior parte das vezes, eu era o lobo solitário uivando pra lua até alguém chegar. Lembrando bem, no início, chegávamos eu e Ivan, depois Alan, e, finalmente, Mércia chegava depois de ter ligado e perguntado onde eu estava.
Com o passar do tempo a sala havia metamorfoseado-se em um quarto ou sala-de-estar: abríamos a porta, soltávamos um boa noite e deixávamos  as coisas ali... e, saíamos. As coisas eram assim, familiares.
Em Lá não existe alguém que chegue depois, porque as pessoas nunca esperam umas pelas outras. Em Lá , cada um tem seu propósito, seu ideal. Em lá não existe um lobo que chega antes, nem um que chegue depois. Em Lá, pra se ter uma idéia de como as coisas andam, até as formigas andam individualmente porque não sabem que trabalhar em conjunto é mais proveitoso. Em Lá as abelhas não produzem mel, porque elas não vivem em colméias, e sim em moradias individuais com parede divisória, cerca e jardim! Afinal, é mais confortável. Pois é, em Lá tudo é meio estranho. As pessoas lá em Lá gostam disso. Eu não.