sexta-feira, 28 de maio de 2010

Como se despedir de um bom amigo: 10 passos


1. Tudo parte da vontade. Se é um amigo mesmo, daqueles que tem um lugar reservado no seu coração, então sua vontade certamente será sincera. A vontade sincera de estar com seu amigo é seu ponto de partida.
2. Juntar-se com os iguais. É preciso, para que uma boa despedida seja feita, que você esteja acompanhado daqueles que partilham do mesmo sentimento. Só assim pode-se comungar e ter uma experiência reveladora. A despedida  é, acima de tudo, um momento de glória, e não apenas de pesar.
3. Jogar-se sem medo. Depois que se toma a iniciativa e juntam-se os iguais, é preciso desapegar-se de todas as convenções sociais e de todas as máscaras. Deixar-se guiar pelos sentimentos é o terceiro passo.
4. Escutar é preciso, falar não é preciso. As coisas ocorrem, simplesmente. Um recorda-se de tal ou qual evento; outro soma a isso um detalhe; outro, ainda, ali no canto, sorri. Todos sorriem. Nesse momento, o silêncio fala e nós os escutamos. O quarto passo refere-se a ouvir até onde as palavras estão ausentes.
5. Ao seu amigo, que desbravará outros horizontes, ofereça tudo o que houver de bom em você. Sinta-se uno. O melhor presente que você pode oferecer é o abraço carinhoso e os braços abertos, ansiosos por recebê-lo de volta.
6. Ter um meio de locomoção adequado. Um carro é bom e facilita muitas coisas. A conversa durante o caminho, para qualquer rumo, é o mais interessante. As piadas, rememorações e coisas sérias que falamos ficam gravadas na gente. Não precisa ser uma Ferrari. O que importa mesmo são as pessoas que estão nele. ( E que ele ande).
7. Tenha pouco ou o suficiente de dinheiro no bolso. As melhores despedidas são aquelas regadas a caldo-de-cana e pastel. Não é necessário mais do que isso. Lembre-se, o que importa nessa ocasião não é seu estômago, mas o pão que se reparte na última "ceia" de vocês. O repartir é a palavra-chave do sétimo passo.
8. Brinque o máximo que você puder. Os sorrisos têm o dom de atenuar dores físicas e emocionais. Não nos deixa, também, cair em lamentações. Se existirem lágrimas, que sejam de tanto sorrir.
9. Toquem as mãos. Façam-se elogios. Abracem-se. Sempre mais uma, duas ou três vezes. Não há quantidade certa pra isso. Apenas faça o que der na telha. (ver o passo número 3)
10. Não siga regras. A amizade não é regida por regras. É algo que acontece. Você não escolhe seus amigos, pelo menos não com tanta acurácia. Eles chegam na sua vida. É isso: eles chegam e você os acolhe ao mesmo tempo em que é acolhido. Amizade não tem barreiras, e, se houvesse, elas seriam facilmente destruídas. A amizade é uma das manifestações da poderosa força construtora do amor.

domingo, 23 de maio de 2010

Eu estava lá.

Eu a tinha notado, cabisbaixa, andando disfarçadamente, como se algo a incomodasse e como se aquilo não devesse incomodar a mais ninguém além dela mesma. Perguntei às outras pessoas que a viam com frequência sobre se a tal fulana não andava meio estranha. Disseram que não. Bem, eu acreditei. Por que duvidaria? Disseram-me que ela mostrava-se feliz como sempre, brindava os velhos amigos e os novoscom a irreverência de sempre.
Devo confessar que ela sempre foi impulsiva. Não hesitava em se mostrar indignada acerca de algo, sem mostrar seu modo de encarar a situação de seu jeito. Peculiar, é claro. Mas não deixava de se mostrar como era - e continua sendo.
Se os outros diziam que ela estava bem, por qual motivo eu deveria me preocupar? Talvez fossem meus olhos os errados. Tantas pessoas - duas ou três, pra ser sincero - falando a mesma coisa, como poderia discordar. O conformismo é mesmo uma praga; saberia tempos depois.
A responsabilidade não me chamava pelo nome. Aliás, ela até chamava, mas num tom ainda ameno. Se ela tivesse gritado, quem sabe eu reagisse de maneira diferente? Às vezes não gostamos de ser reponsáveis pela felicidade de quem gostamos. Eu até sei que existe um limite pra isso, mas essa responsabilidade(palavra longa pra se escrever e complicada de se aceitar) ainda existe. Gostamos de nos entregar, mas não de segurar algo ou alguém que se entregue. O fardo parece pesado demais.
O fato é que ela estava mesmo com algum sofrimento. Um dia a vi, com a expressão de quem sofria terrivelmente. Voltei a perguntar. Disseram que eu havia enxergado demais. Chamei-os de cegos - apenas esbocei umas palavras, meus lábios até se mexeram um pouco, mas o grito foi dado mesmo na minha consciência. Esta já se ocupava de encontrar uma solução: o que deveria ser feito? As pessoas com as mãos amarradas por fios invisíveis. Passou pela cabeça deles, faz-me crer, que ela já tinha havia se tornado um incomodo há muito. Melhor seria livrar-se dela. Indignação. Raiva. Peso na consciência. Meus olhos estavam bons, e eu não havia lhes creditado.
 O problema não é quando não se enxerga, mas quando se enxerga além da capacidade da visão. As visões paralisam a gente.
Recuperado do choque, voltei a encará-la, dizendo em palavras mudas que eu havia finalmente percebido o que deveria ser feito. Pensei ter visto um suspiro de alívio e que ela me dizia: só agora você percebe? 
Chega o momento em que devemos fazer o que deve ser feito, que não necessariamente é o que gostaríamos de fazer. E o pior inimigo do homem é o orgulho que lhe segue, que sufoca...
Levei-a comigo. Os outros ajudaram, não sei se comovidos com minha comoção, mas eles também estavam lá. Eu a vi entrar no consultório.
Eu estava lá, sempre ao seu lado. Minha mente traçara todos os diagnósticos possíveis; desde o intratável tumor maligno, até uma branda tensão por estresse - já fazia algum tempo que a gente não tinha um tempo a sós, talvez isso tivesse desencadeado uma crise de carência aguda, quem sabe?!
Eu estava lá, quando ela suportou duas doses de calmante no primeiro dia. O corpo permanecia forte. Guerreira que é, não cedeu. 
Eu estava lá no segundo dia, quando resistiu às três doses de anestesia. estava lá na primeira dose, na segunda. 
Estava lá quando ela me olhou, e quase me dizia que não ia desistir. Seu orgulho me parecia meio besta num momento daquele, no entanto, aquela era ela. De fato. Mas ela cedeu na terceira.
Eu também estava lá no diagnóstico; era grave, mas poderia ser tratado.
Apesar do menosprezo que temos pelo dinheiro, ele se faz necessário quando a saúde de quem você gosta está em jogo. Nesse jogo, se você dá o que tem, você ganha. Eu não entro em jogo pra perder. Competir só é bom em entrevita de esporte. Estamos aqui, lutando. A vida é um jogo que devemos ganhar.
Ela está bem agora, mais forte, com a expressão de felicidade de sempre - a verdadeira expressão. No entanto, uma pergunta persiste em mim: os cão é o melhor amigo do homem, mas é o homem o melhor amigo do cão?