Na verdade, tudo começara meio incerto. Ninguém sabia quem era quem naquela grande confusão. Rostos desconhecidos, gestos mais ainda. Quantas histórias podiam ser contadas, quantas mágoas, alegrias, esperanças e desejos.
Mas a massa disforme foi, aos poucos, ganhando contornos bem definidos. Agora as coisas pareciam bem mais agradáveis. Bem, existia o lado ruim: quando algo já está formado não lhe é mais permitida a capacidade de imaginar o que aquele algo se tornará. Talvez esse não tenha sido o grande problema.
Com o passar do tempo, as coisas receberam nome e hierarquia. Não que houvesse um Adão dando nomes a tudo: "aquilo é pedra", "isso é coelho", "aquilo é passarinho"... Não se trata disso. No entanto, existia ali vários Adão"s", classificando tudo segundo suas prioridades e visões de mundo.
Foi numa dessas classificações que me encaixaram como alguma coisa. Bem, eu creio ter sido incluído em alguma, porque eu mesmo classifiquei a todos. Admito que nem todos os rótulos foram bons, e os que foram inicialmente bons, se tornaram ruins, sujeitos a uma nova classificação. Aos poucos, observei que as divisões e hierarquias que eu havia feito precisavam ser mudadas. Pra ser sincero, mudei-as várias vezes...
O fato é que, na nossa última classificação, eu, ao assumir o papel de um Adão sem Eva, cometi o erro de classificar um leão como um gato. Esse foi um baita erro. Antes que vocês me cravem numa cruz, deixem-me explicar... Em primeiro lugar, eu devo me defender partindo de que ambos são mamíferos e felinos. O erro, dependendo de como eu o vi, pode ser até perdoável desse ponto de vista. Em segundo, gostaria de dizer aqui que os dois tem bigodes. Não é lá essas coisas, mas, se você está no escuro e só depende do tato, você deveria saber que esse dado pode ser muito revelador. Em terceiro, ambos têm pêlos, o que é um grande diferencial: se um deles tivesse penas eu não poderia confundi-los. Além dessas, muitas outras semelhanças existem.
Como eu havia falado, o erro foi cometido, mas o detectei a tempo, eu acho. Pensando, descobri os pontos em que eu havia me equivocado. a) O leão, outrora tido como gato, movimentava-se cautelosamente como seu amigo felino doméstico: ninguém sabia ao certo onde ele estava, aos poucos estava ali naquele grupo de animais, ora num outro grupo. b) Os outros animais o respeitavam não porque ele era fofinho (como um gato desses que passa se esfregando na perna da gente), mas porque ele inspirava confiança e respeito. c) O leão que tomei como gato, se via como gato. d) O leão não rugia! Acredita nisso?! Ele não ru-gi-a!
Um dia, muito decepcionado com o erro que cometera, me encontrei com o leão (que eu havia chamado de gato. como eu pude fazer isso?) e me retratei do meu erro. Ele, muito paciente, disse: "Não, não, você não cometeu nenhum equivoco. Eu sou um gato". Calei, encarei-o (com medo, mas encarei). Ele estava muito seguro de que era, de fato, um gato. E, pelo jeito que falava, era um gato siamês.
Me desculpar não era o suficiente. Agora minha tarefa era provar que eu estava certo.
Vários dias eu pensei, pensei, e pensei... Quais provas eu iria mostrar pra um leão que acha que é um gato?
Outro dia, munido dos argumentos necessários, fui lá conversar com ele, que, como sempre, estava no meio dos outros animais... crente que era um gato!
Toquei no ombro e falei-lhe: "Se você é um gato, por que tem juba?" Ele coçou a cabeça, percebeu a juba, olhou pra mim: "Deve ter sido uma anomalia em algum cromossomo". Pensei comigo que ele tinha até contra-argumento na ciência moderna. (Quem disse que a ciência era boa em todas as ocasiões?).
Mas eu tinha um plano B.
"Se voce é um gato, porque seu rabo não é como aquele ali?" - E apontei pra um gato que acabara de entrar numa lata de lixo".
- Problema de infância. É muito traumático falar disso. - Contra isso eu também não tinha nada a declarar. Afinal, se ele não queria falar, não sou eu quem insistiria.
Eu já estava sem opções. Isso me fazia repensar se eu era mesmo eu.
Depois de algum tempo, cansado de tanto tentar convencer o leão de que ele era um leão, uma grave seca assolou nosso território. Os outros animais já estavam cansados e exaustos. Eu, particularmente, não aguentava me manter alerta por muito tempo. Um outro animalzinho - eu creio que era fêmea, - nem falava mais. Um outro animal, que hoje eu descobri ser um sagüi em risco de extinção, nem mais aparecia por ali. Diziam que, mesmo com toda aquela crise, ele procurava uma parceira pra se reproduzir. O fato é que, só o "gato" conseguia se manter de pé.
No meio desse caos, onde ninguém aguentava mais nada, e vendo seus amigos animais magros, abatidos e beirando a morte, o leão vê, ao longe, um cervo em disparada. O leão corre... e eu creio, hoje, que ele nem pensou em correr, apenas foi.
Ele crava os dentes no pescoço do cervo, e traz a caça para os animais famintos. Estando entre eles, vi ali uma oportunidade de convencer o leão de que ele, de fato, era um leão... meus olhos brilharam com a idéia. Olhei novamente e perguntei: "Vem cá, você já viu algum gato caçando cervo?". Meu argumento era bom. Confesso. Se ele disesse que era uma anomalia herdada, eu poderia apontar para os outros leões que habitam por ali e diria: "Então aqueles caras lá também são gatos, ou eles têm a mesma anomalia genética que você, e nós dois sabemos que mutações genéticas são inespressivas estatísticamente, o que, invalidaria sua resposta...". É, meu argumento era bom. Eu estava prestes a receber um "Sim, eu sou um leão". Afinal, eu sempre tentei comparar ele com ele mesmo, e nunca com outros da espécie...
Ele coçou a cabeça, olhou para os lados, e me respondeu:
- Devo confessar que nunca vi um gato comendo cervo, mas você ouviu falar daquela história que um gato-selvagem matou um cervo nas bandas de..."
E até hoje eu tento convencê-lo de que ele não é um gato.
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